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sábado, 19 de abril de 2014

PÁSCOA - UM POUCO MAIS

TEXTO ESCRITO POR: MÁRIO INGLESI

VÍDEO YOUTUBE SUGERIDO POR: RICARDO LEME



A história da páscoa encenada por crianças
Dr. Ricardo

Eis que chega neste ano, a festividade da Páscoa, cujo teor cinge-se à comemoração da ressurreição de Cristo.

Isto, talvez no plano eminentemente subjetivo, dado que, na nossa pretensa modernidade, a comemoração mítica religiosa foi, como num passe de mágica, substituída pela azáfama da posse de chocolate, em forma, preponderantemente, de ovos, de tamanhos que vão dos maiores e, preferencialmente, recheados com mais chocolates com sabores e tamanhos diversos, quando não acompanhados do seu autor, também achocolatado, o então, sempre acolhedor, coelho da Páscoa, símbolo mítico da fertilidade de vida nova trazido pelos imigrantes alemães à América, - segundo consta, entre os séculos XVII e XVIII.

Esse chocolate ganhou foro de verdadeiro anfitrião: dono da festa, e, como tal, guloseima preferida pelas moçoilas de então já que os homens, à época, machistas que se mostravam, esgueiravam-se até de experimentá-los, preferindo dá-los às suas amadas, como prova de benquerença.

Para elas, o empanturrar-se de chocolate era uma dádiva, mas também uma gula, e como tal, pecado capital.

Para livrar-se disso, e poder comê-lo sem culpa, corriam ao confessionário da igreja mais próxima, para purgar o pecado em preces demandadas pelos prelados.

Entretanto, com isso não garantiam sua cintura fina, cintura de pilão. Mas o que fazer? É Pascoa!

Hoje, agradecem elas, felizmente, esse tempo passou. O pecado foi pra cucuía, totalmente ignorado nos dias que correm. A silhueta, por sua vez é mantida nas “Academias” de ginásticas, com o uso por algumas horas, diárias ou não, dos seus aparelhos miraculosos, como esteiras, bicicletas ergométricas, levantamento de pesos, ou então, no andar quilométrico pelo calçadão, com a perda das gordurinhas e, obviamente, com a feliz manutenção, da barriguinha tanquinho, tão cuidadosamente mantida.

Os namorados, agora, compartilham com elas e seus irmãos mais novos ou ainda crianças, o doce sabor de muitos e muitos ovos, de chocolate, já em pedaços, de tamanhos díspares e de acordo com o tamanho dos olhos, sempre maiores que a boca.

Com tudo isso, o que ficou garantido mesmo foi a fertilidade do coelho, que se estendeu aos bolsos, cada vez mais cheios, dos fabricantes, sejam eles pessoas jurídicas ou físicas, e também aos vendedores e revendedores, que com a ajuda do merchandising dão status ao produto e promovem-lhe a venda em quantidades nunca dantes imaginadas, cobrindo áreas enormes de mercados ou supermercados.

Mas o que fazer? Será melhor comer, comer, comer, e talvez em horas aflitivas, depois, logicamente, quando empanturrados de chocolate e tudo o mais de comes e bebes em comemoração à data, pedir em alto e bom som: Senhor! Tende Piedade de Nós!

Pode ajudar dar alento a tanta gula, que se reitera dia a dia, mas o problema maior não se atém a isso. Está em jogo a saúde, o bem estar, de crianças, jovens e adultos, as complicações futuras, traduzidas em colesterol alto, diabetes, e outras tantas doenças ou anormalidades físicas provindas do excesso de açúcar, cacau de baixo teor, aditivos e outros ingredientes que normalmente se configuram num “ovo” de Páscoa, numa caixa de bombons, ou em tabletes de chocolates oferecidos a granel, por ocasião de mais essa festividade.

Certo: É festa! É Comemoração!  E, mais festas mais comemorações! , e por aí “La Nave Va”, mas, em se tratando de nós, é preciso lembrar de “Sinais do Mar” de Ana Maria Machado:


“Velas sem vento

almas sem calma

encalham em sargaços

nas águas salgadas.



Algumas naufragam

soçobram em escolhos

só sobram

sem escolhas

sem escolta, poucas naus

- e nós”



E reafirmarmos para nós mesmos, inclusive em situações festivas como agora a da Páscoa: “saúde é prioridade!!!” para um contínuo navegar e palmilhar esse nosso microcosmo planeta Terra.



Mário Inglesi


segunda-feira, 14 de abril de 2014

PÁSCOA – CORDEIRO OU COELHO?

Veja também: Páscoa - um pouco mais...


Experimente escutar o Agnus Dei de Barber enquanto lê o texto...

Culminância e profundeza, alegria e mistério, seiva e sangue permeiam a memória do planeta, que desde seus primórdios celebra o momento presente enquanto símbolo maior da vida. A Páscoa fundamenta tema de rara complexidade e limitado alcance ao humano, fadado à parcialidade por melhor que seja a intenção. Este passeio denota uma possibilidade, ainda que limitada, de contemplar o mistério vivo e seu correlato: o ministério da vida.

Como tudo o que a vida toca, o símbolo se transforma, e ainda que a visão não seja plena, sejamos reverentes às faces que se nos apresentam, pois que talvez se trate apenas de parte. De fato, mais que o símbolo, é o olhar que se transforma, passando a ver o que sempre esteve ali com outra veste. Na antiguidade, Vesta (Vesta – romana; Héstia – grega) portava e preservava o fogo sagrado, símbolo maior da vida.

Fora primavera e equinócio que fundamentasse a força da terra que germina; fora o sangue do cordeiro que sinalizasse à passagem do anjo da morte preservando os primogênitos antes da fuga do Egito; fora o sangue do cordeiro (áries) que tenha se manifesto a partir das águas do caos (peixes); fora o humano que compreendeu que a Vida é mais e A escolheu, que a essência luza e em sua luz possamos banquetear ágape. E que este passado seja mais que perfeito em forma, pois que é essência.

Rupert Sheldrake convida que admiremos a natureza sob a perspectiva de hábitos que evoluem e não a partir do paradigma de leis imutáveis – veja em: TED - Os Hábitos da Natureza. Curiosa e desconfortável abordagem para aqueles de nós em busca de verdades apreensíveis, inquestionáveis e inquebrantáveis, quem sabe verdades mortas; afinal só o que é morto não muda, vida é mudança e transformação.

Olhar a Páscoa atualizada por esta lente é descobrir semelhança clara entre as concepções acima; desde Ostera (Easter) que carrega o coelho e representa as forças da natureza primaveril do equinócio, passando pelos primogênitos que preservam a vida após a passagem do anjo e culminando em Cristo que nasce na terra quando o sangue do corpo de Jesus (Agnus Dei) toca o solo, em todas estas Páscoas é possível ler o que subjaz às aparências; a vida que silenciosamente as permeia. Diferentes visões, diferentes hábitos, apenas um movimento na transfiguração do símbolo que ganha roupagens diversas ao se mesclar ao tecido temporal da história da humanidade. Afinal, as coisas são o que são porque foram o que foram.

Por se tratar de festividade móvel, no calendário solar, a cada ano a celebração da Páscoa é calculada segundo algoritmos relacionados à posição dos luminares celestes, o Sol e a Lua. Na época da Páscoa, do ponto de vista calendário zodiacal, o Sol está na maioria das vezes relacionado ao signo de Áries e menos comumente ao signo de Touro, visto variar entre os dias 22 de março a 25 de abril, em ciclos que se repetem a cada 5,7 milhões de anos (vide figura abaixo).



Práticas irmãs, podemos observar que o judaísmo e o islamismo guardam nítida afinidade com a Lua, enquanto a prática cristã com o Sol. A simples observação de como o dia é descrito no Gênesis torna isso claro (Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia).

Veja sobre calendários lunares:



Ora, a Lua apesar de eventualmente diurna, reina soberana à noite; sendo assim, certas culturas assumem a noite como princípio do dia. Até onde pude notar, verifique você, a Páscoa judaica sempre ocorre na Lua cheia; de modo complementar, a Páscoa cristã nunca ocorre na lua cheia, menos ainda com a lua se enchendo (caminhando para fase cheia), mas sempre que a mesma está se esvaziando na direção de nova. Este fato, de forma alguma coincidência, é o motor da mobilidade da Páscoa conforme observada no calendário solar. Veja como é feito o cálculo da Páscoa:


A dificuldade em lidar com a dicotomia simbólica do coelho e do cordeiro em relação à Páscoa, especialmente quando se pensa em Cristo ou na passagem do anjo da morte, decorre da superficialidade do olhar dos observadores. Aparência e essência; em uma a multiplicidade da unidade, noutra a unidade da multiplicidade. Duas situações, um símbolo, o sangue do cordeiro; no primeiro caso, Cristo Jesus é a própria representação do cordeiro (Agnus Dei) a ser imolado; no segundo caso, a marcação das portas com o sangue do cordeiro impedindo que os primogênitos das famílias judaicas fossem levados pelo anjo da morte (vide pragas do Egito).

Páscoa - Coelho ou Cordeiro?
 Vale ainda lembrar que os leporídeos coprófagos (coelhos) que não botam ovos e tem alta capacidade reprodutiva (gestação breve (30 dias) e em alguns casos aptos à fecundação com menos de seis meses de idade) encontram sua relação com a Páscoa em Ostara (Sobre Ostara - Wikipedia), entidade associada em mitologias antigas ao início da primavera.

Quanto aos ovos, existem relatos de que nem sempre foram comestíveis, apenas decorados com símbolos primaveris e sagrados. Curioso que atualmente muitos acreditam comer chocolate quando na verdade saboreiam essência de cacau misturada com leite e gordura hidrogenada. O simples hábito de ler o rótulo do produto pode minimizar este “atentado” à saúde decorrente de práticas comerciais que visam lucrar em detrimento da saúde alheia. Em reportagem recente (2014) para revista de utilidade pública, especialistas alertam:

“No geral, o trio de experts concluiu que os ovos testados são "regulares". “Tenho pena das crianças de hoje, que crescem achando que esse tipo de doce é chocolate”, lamentou Janaína. Para Corazza, o cenário é “entristecedor e funciona como um desserviço à sociedade”. Critérios como a qualidade do chocolate, a espessura da casca e a textura do recheio, bem como a harmonia entre os dois fatores, deixaram a desejar. “Muitos deles nem pareciam chocolate de verdade”, criticou Danielle. "Tinham sabor de essência e gordura hidrogenada", diz ela. Fonte: Artigo Veja SP

Apesar de percalços como estes, a época da Páscoa é ideal para melhor compreender as semelhanças entre as visões judaica e cristã. Nesse sentido, a Wikipédia oferece um vislumbre bastante razoável sobre o tema:







A despeito do convencionalismo da época e dos costumes vigentes desde nossa infância, existem abordagens do tema pouco conhecidas. Rudolf Steiner é um destes pensadores que exploram com reverência suprema, em sua bela obra “O Evangelho Segundo João”, o evento Páscoa, culminância da experiência de Cristo Jesus (Pode ser escutado em inglês no link: Steiner - Evangelho São João). O autor nos apresenta a ideia de Cristo enquanto entidade cuja “gestação” ganha espaço na figura histórica de Jesus, no momento do batismo à margem do Rio Jordão. Por três anos Cristo Jesus irradia em seus passos o fundamento de sua manifestação, a semeadura do princípio do amor na Terra. Nessa linha a Páscoa representa a culminância de um processo supremo no qual Cristo “gestado” em Jesus permeia, a partir do sangue derramado no Gólgota (lugar da caveira), o corpo da Terra; neste momento a própria entidade Cristo nasce no seio do planeta. É curioso notar como este simbolismo unifica a Páscoa de modo sui generis, visto transformar uma primavera exclusiva ao hemisfério norte em outra, a Primavera de uma Terra unificada.



Max Heindel e Corinne Heline também deixaram algumas pérolas sobre a mística pascal que pedem atenção da parte do estudante interessado em se aprofundar no assunto:





 
A Ressurreição de Cristo - Rafael Sanzio - (1483-1520)

De fato, toda Páscoa é natividade e momento de reflexão. Kieslowski em seu “Decálogo” aguça a percepção, sendo profilaxia às escolhas por vir...

Aqui o primeiro de dez, os outros são fáceis de achar:




Nikos Kazantzakis, escritor, poeta e pensador Grego; autor de “Zorba o Grego” e “A última tentação de Cristo” (1951), filmado a posteriori por Martin Scorsese (1988), me acompanha nesta Páscoa em sua curiosa obra: “O Cristo Recrucificado”. Natividade é o nome que ele usa para descrever este momento em que Cristo revisita a terra. Finda a obra, uma pequena parábola contada pelo personagem Photis, chamou atenção:




– Era uma vez dois caçadores de pássaros que foram montar armadilhas numa montanha. Armaram-nas e, voltando no dia seguinte, que viram? Estavam cheias de pombos selvagens. Os pobres animais jogavam-se contra as redes num esforço desesperado para escapar, mas as malhas eram muito cerradas; por fim os pombos se encostaram uns aos outros e aguardaram, tremendo. “Estes animais danados estão pele e osso”, disse um dos caçadores. “Como é que vamos vendê-los no mercado?” “Nós os alimentamos bem por alguns dias para engordá-los”, disse o outro. Deram-lhes grão em abundância, trouxeram-lhes água. Os pombos começaram a comer e a beber com avidez. Um apenas se recusou a tocar no grão. Nos dias seguintes, foram alimentados do mesmo modo. Engordavam à vista d’olhos. Só o refratário emagrecia e tentava sem descanso passar através da rede. Vieram enfim os caçadores buscá-los para os levar ao mercado. O pombo que recusara a comida tinha emagrecido tanto que num golpe de asa voou, livre, no ar...


 Na esperança de que tenhamos clara no coração a diferença entre Buda e Budismo, Cristo e Cristianismo, Páscoa e "Pascoalismo", ficam aqui os votos de uma Boa Páscoa!


terça-feira, 8 de abril de 2014

SIMETRIA IV - UMA POSSIBILIDADE INSÓLITA

Continuação de:

Simetrias I
Simetrias um pouco mais
Simetrias II
Simetrias III




Narciso e Eco - Observe-se a verticalidade x horizontalidade além da cor das vestes


Existe como que uma simetria linguística, conceitual, envolvendo as ciências duras e moles. Dura e mole são, neste caso, sinônimos para o entendimento respectivo das ciências natural e social (Ciência - wikipedia). Grosso modo, a sustentação conceitual para que uma ciência seja considerada dura é a existência de um paradigma (modelo) sobre o qual ela possa ser constituída (Paradigma - wikipedia). Os proponentes mais exaltados deste pensar argumentam que as "ciências moles" não usam o método científico, e que ousam admitir evidências “anedotais” ou não matemáticas, carecendo de rigor em seus métodos!

Oponentes moderados argumentam que as "ciências sociais" se articulam sobre sistemáticos estudos estatísticos em ambientes estritamente controlados e que essas condições nem sempre são respeitadas sequer pelas ciências naturais. Cite-se a Astronomia, ciência observacional que se desenvolve peculiarmente, haja vista as grandezas e distâncias envolvidas.

Galáxia Sombrero

De fato, para uma teoria classificar-se como científica, deve obedecer aos rigores do método científico sem que transcenda o paradigma vigente sob o qual foi concebida. Mas, e se a teoria não couber no paradigma, for maior que ele? Isso implica que para um conhecimento em humanidades adquirir grau de científico, deveria se articular sobre um paradigma. Neste caso, isso implicaria em estabelecer um modelo ou compreensão básica em relação à questão magna: “O que é a Vida?”. Mas como alcançar questionamentos desta envergadura neste momento em que o humano chafurda em preconceitos? Pré conceitos falsos assumidos a priori decorrentes de seu próprio desinteresse a respeito do que seja a vida. Para muitos, até hoje, a Terra orbita um Sol central estático, ignorando o fato do mesmo ser um viajor sideral a cerca de 72000 Km/h ou 20 Km/s!


Supondo que tal paradigma pudesse ser estabelecido, uma ciência, gramaticalmente constituída e funcionalmente equipada, com sua matemática própria e com suas leis daria os ares de sua graça. Curioso notar, entretanto que o próprio método científico e seu atual paradigma dificulta a possibilidade de um novo olhar, visto ser hoje pedra angular de toda estrutura social. Na mesma medida em que é palavra última a respeito do que se trata a vida e sobre qual é a direção do “progresso” e sobre o que é desenvolvimento, silenciosa e sub-repticiamente determina como as pessoas devem viver.



“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (J.G.)



Lembre-se que o humano, sendo sugestionável e respondendo instintivamente a muitas situações, presentemente tem pouca consciência do processo maior que subjaz à própria existência. De fato, viver menos de um século deveras dificulta esta compreensão, especialmente em momentos de liquefação nas relações e aceleração do ritmo de vida decorrente do estado sutil de adoecimento social. Fundamentalmente isso deságua em outra questão magna da qual o humano se afasta mais a cada dia: “Qual é o sentido da vida?”. Ocuparam-se desta questão com propriedade solene, dois pensadores de ascendência judaica, Viktor Frankl e Erich Fromm.

Em vista da insolubilidade epistemológica desta questão, Schrödinger, físico fundamental na elaboração da teoria quântica (cuja equação de onda leva seu nome), interessado em religiões tradicionais e filosofia da física, deu um pequeno passo em seu modesto e profundo ensaio: “O que é a vida” (What is life – 1944). Sem entrar nos pormenores, a parte curiosa diz respeito à sua colocação em relação às simetrias e à biologia. Nesta obra, leitura imprescindível, o autor esmiúça um olhar simétrico e comparativo aos cristais periódicos e aperiódicos. O cromossomo (DNA) pode ser visto como um cristal aperiódico carregador da vida, segundo ele. Em suas palavras:


“Para dar à sentença vida e cor, permita-me antecipar o que será explicado em muito mais detalhes à frente; seja que a parte mais essencial de uma célula viva, o cromossomo, possa ser chamada apropriadamente um cristal aperiódico. Em física temos lidado, até então, apenas com cristais periódicos. Para a mente de um físico humilde, estes são objetos muito interessantes e complicados, constituindo uma das mais fascinantes e complexas estruturas materiais pela qual a natureza inanimada arquiteta sua perspicácia. Ainda assim, comparados aos cristais aperiódicos, eles são mais simples e sem graça. A diferença em estrutura é do mesmo tipo que aquela entre um papel de parede ordinário no qual o mesmo padrão se repete indefinidamente em periodicidade regular e um bordado artístico, digamos uma tapeçaria de Rafael, sem repetições óbvias, mas um desenho elaborado, coerente, significativo traçado pelo grande mestre. Ao chamar o cristal periódico como um dos mais complexos objetos de sua pesquisa, eu tinha em mente o físico propriamente. A química orgânica, na verdade, ao investigar moléculas mais e mais complexas, se aproximou muito mais daquele “cristal aperiódico”, que em minha opinião, é o material carregador da vida.” (E. Schrödinger – What is life? The Physical Aspect of the Living Cell – 1944. p.3-4)




Cerca de nove anos após as palavras de Schrödinger, Watson e Crick em 1953 descreviam a molécula de DNA, sendo em 1962 agraciados com o Nobel de Medicina. Mais recentemente, em 1995, uma nova obra: “O que é a vida? 50 anos depois” – traduzida pela editora UNESP – revisita a proposta de Schrödinger e nos presenteia com várias novas pérolas e especulações sobre o futuro da biologia; merece ler e reler!

Recentemente, alguma atenção foi dada aos cristais aperiódicos conforme citação na segunda parte da presente reflexão, em relação aos quasicristais. Mas enquanto a ciência não monta o “quebra-cabeça”, sempre vale apreciar visões menos convencionais, que fora do paradigma vigente possam oferecer alternativas ao pensamento cristalizado, mineralizado e quiçá morto.


A fim de explicitar graficamente as relações possíveis no mundo fenomênico, os físicos utilizam o diagrama de Minkowiski (Diagrama Minkowski - wikipedia). Pelo diagrama é possível observar três tipos de intervalos na descrição da realidade: tipo tempo, tipo espaço e tipo luz. Grosso modo, habitamos uma realidade do tipo tempo, caracterizada pela observação sucessiva de eventos que interpretamos a partir da noção de que uma causa gera um efeito consequente. Simplificando, no intervalo tipo luz, o tempo pararia e a causalidade cessaria como se fosse um mundo de simultaneidade atemporal. No intervalo tipo espaço, é concebida conceitualmente a ideia de um espaço de realidades fenomênicas ocorrendo a velocidades superiores à da luz, o que ocasionaria um desacoplamento da relação de causa e efeito conforme estamos habituados, podendo o efeito se manifestar antes da causa, por exemplo. Esta concepção aparentemente insana é bem ilustrada por Steiner abaixo. Autores como Alan Lightman em “Sonhos de Einstein” e Italo Calvino em “Cidades Invisíveis” encaram estas ideias com galhardia e estimulam a criar espaço interior para conceber a realidade sob perspectivas inusitadas até o momento presente.

Rudolf Steiner proferiu uma palestra em 17 de maio de 1905 sobre possibilidade insólita e ainda pouco considerada em nossos dias, senão repudiada. Trata-se de um olhar à quarta dimensão como outro plano de existência, chamado pelo autor de mundo astral. O pré-requisito básico para a compreensão das ocorrências neste espaço seria a interpretação simétrica de eventos! Nas palavras de Steiner, os eventos posteriores ocorreriam primeiro e os anteriores ocorreriam a posteriori, ocorrendo aqui como que uma inversão na relação de causalidade (causa-efeito). Se no plano físico o nascimento ocorre primeiro e nascimento significa que algo novo nasceu de algo antigo, no plano astral o antigo emergiria do novo, de modo que a paternidade e a maternidade estariam de fato no interior do filho ou da filha.

Usando a mitologia grega como instrumento, Steiner simboliza três mundos a partir das divindades gregas Urano, Cronos e Zeus. Urano representando o mundo do pensamento (devachan), Cronos o mundo astral e Zeus o mundo físico. É dito que Cronos devorava suas crianças. No mundo astral, a criação não nasce, mas é devorada. Nas palavras de Steiner:

“A questão se torna ainda mais complexa quando consideramos a moralidade no plano astral. A moralidade, também aparece de forma reversa, ou como sua própria imagem espelho (simétrica). Você pode imaginar o quanto as explicações dos eventos lá diferem de nossas explicações habituais no mundo físico. Imagine, por exemplo, que vejamos um animal selvagem se aproximando de nós no mundo astral e que ele nos devora. Assim é como parece para alguém habituado a interpretar eventos externos, mas não podemos interpretar este evento como o faríamos no mundo físico. Na realidade, o animal selvagem é uma qualidade interna, um aspecto de nosso próprio corpo astral que nos devora. O ataque devorador é uma qualidade residente em nossos próprios desejos. Se tivermos um pensamento de vingança, por exemplo, o pensamento pode assumir uma forma exterior e nos atormentar como o Anjo da Morte. Na realidade, tudo no mundo astral irradia de nós. Devemos interpretar tudo que se aproxima de nós no mundo astral como irradiado a partir de nosso interior. Este conteúdo retorna a nós por todos os lados como vindo da periferia, do espaço infinito. Na verdade, entretanto, estamos nos confrontando apenas com o que nosso próprio corpo astral emitiu.” (R. Steiner – The Fourth Dimension – Sacred Geometry, Alchemy and Mathematics – p.20)




É preciso parcimônia neste momento em que tudo parece vitimado por explicações quânticas, apesar de até agora a teoria estar dando conta do recado, ao menos dentro do domínio físico material. Aferir realidades suprassensíveis com técnicas e materiais de uma realidade inferior parece contrassenso a ser repensado. Ao que tudo indica pode ser necessária uma transformação na própria forma como concebemos a realidade antes de prosseguir.



Explicar o inexplicável ou inefável com substratos do mundo da matéria pede atenção! A razão e a lógica são ferramentas indiscutivelmente poderosas dentro de suas arenas, mas podem não sê-lo em outras questões. Um modelo alternativo de elaboração, nem melhor nem pior, apenas diferente, é o pensar analógico que encontra nos mitos sua expressão plena. Os mitos funcionam como um milagre ou espelho que por concessão simétrica nos permite algum vislumbre do incognoscível, desde que haja mínima reverência no coração do buscador pelo fundamento de sua busca (Michael Ende trata disso no capítulo 6 e 7 da obra "História sem Fim").

Não bastasse isso tudo, um afastamento temporal ainda mais ousado, permite o vislumbre de um fenômeno simétrico significativo, ainda pouco compreendido, descrito por Paulo na primeira carta aos Coríntios.
Conversão de Saulo - Note-se a horizontalização do humano e a verticalização do animal - Damasco (Cidade do Jasmin)


“A nossa ciência é parcial, a nossa profecia imperfeita. Quando chegar o que é perfeito o imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, julgava como criança, quando me tornei homem, acabei com as coisas de criança. Porque agora vemos por um espelho, obscuramente; mas então veremos face a face. Agora conheço em parte; mas então conhecerei plenamente, assim como também fui plenamente conhecido.”


A provocativa simetria poética do texto acima se faz ainda mais significativa quando vista à luz da concepção Paulina de corpo psíquico (Soma Psuchicon - Psiqué – Alma), corpo alma – que animaria o corpo físico (anima = alma) e permitiria o despertar consciente nos planos suprafísicos; enfim, a ideia de um corpo representando a própria manifestação conceitual e funcional de simetria.

Loucura ou caminho para um pensar mais vivo?


terça-feira, 1 de abril de 2014

AINDA ANO NOVO


Mario Inglesi sobre: Ano novo - Tudo "novo"


 Dr. Ricardo



A beleza de seu texto e o florir das ideias nele expostas, são sempre bem-vindos, pois – ainda que momentaneamente – nos dá um bem-estar, tal como um belo sonho sonhado, seguido de um repentino despertar.

O despertar, entretanto nos trás à realidade e esta nos infunde reflexões nem sempre condizentes com o esperado pelo sonhador.

É assim que: Descobrir um Novo Ano Novo é pauleira. É lenha na fogueira

Imagine, mais um feriadão, mais uma grande promoção de vendas: ofertas mil para encher sacolas e mais sacolas, com bebidas, comidas, envoltas para viagens, trânsito caótico e prolongado, juntamente com muitas preces e acender de velas, para que o tempo permaneça ensolarado. Porém – que pena!- já sem o 13o salario. Não é mole. Que venha o 14o, para aguentar o endividamento, as culpas, as tensões e os desgastes próprios da situação.

Nessa, o Dalai Lama tem razão em seu fraseado sobre dinheiro, saúde, presente e futuro. Mas é preciso convir que ele está em outra. Dizem-no iluminado, sem muita luz elétrica a encobri-lo, mas envolto no seu otimismo de essência.  Apenas orações, fé e meditação numa vida sem conturbações, longe do mundo e de seus problemas. Enfim uma vida de posicionamento “Zen”: Um Olimpo terrestre, aonde os olhos estão voltados mais para crear (tal como se reza na oração: “Deus creou o céu e a terra”) do que para criar, pois estão mais abertos a “crer” – talvez o melhor registro aproximado de crear do que a “criar”, que é termo reservado aos humanos, em sua acepção mais nobre, abrangente e duradoura.

No ano novo ora descoberto parece ter lugar privilegiado o “Pequeno Príncipe” – sempre a imorredoura saudade da realeza – a nos dizer e acalentar com expressões e ditos bastante pertinentes, mas só atinentes a seu belo e imorredouro contexto ficcional. Quando, por exemplo, revela seu segredo: “Só se vê bem como o coração”. Evidentemente, desconhecia, que o coração tem um pulsar que não combina com a razão, pois está sujeito a sentimentos, na maioria das vezes enganosos e fugazes.

Finalmente, voltar-se em 2014 para pensar que aqui estamos “somente de passagem”, parece insatisfatório, pois tal pensamento é corriqueiro, senão supérfluo, pois não há quem não o tenha, ainda que, ligeiramente em algum momento de reflexão.

O que é preciso pensar, com empenho e eficácia, é no que fazemos e podemos fazer, ou faremos, nessa “passagem” em prol da nossa vida e de todos que nos cercam nesse planeta “Terra”, na solidão e desamparo que nos encontramos.

 Mário Inglesi